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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Crônica de um Aumento Criminoso

Foto: Josué Cardoso

Enquanto o senador moralista Cássio Cunha Lima (PSDB) posa de arauto da justiça divina brandindo contra o ajuste fiscal e o plano de austeridade; no seu curral eleitoral, Campina Grande-PB, seus parentes que governam a cidade estão indo na contramão do discurso moralizante do senador. Romero Rodrigues (PSDB), prefeito e primo, e Ronaldinho Cunha Lima (PSDB), vice-prefeito e irmão, caberiam perfeitamente no discurso moralista do chefe da família. Além de terem fechando restaurantes e cozinhas populares[1], abandonado obras públicas importantíssimas como o Plínio Lemos[2] e postos de saúde sem médicos[3], a trupe perdeu a modéstia definitivamente ao homologar pela 3ª vez consecutiva, em menos de 12 meses, o reajuste da tarifa urbana de ônibus. De julho de 2014[4], passando pelo carnaval[5] e julho de 2015[6], a passagem saltou de já altíssimos R$ 2,10 para R$ 2,55. Para se ter noção, Recife-PE, uma cidade 10 vezes maior que Campina Grande, a passagem custa R$ 2,45; em Fortaleza-CE, R$ 2,40. Nunca saberemos para agradar a quem esse aumento. O que se sabe até o momento é que o transporte público da cidade sofre dos mesmos problemas crônicos que qualquer outra cidade de médio/grande porte: falta de segurança, veículos sucateados, latas de sardinha, além da dupla função que o motorista exerce, ocupando o lugar do cobrador, pondo em risco a vida dos usuários enquanto dirige e passa o troco. Com todos esses problemas em voga, a única solução oferecida ao povo campinense é o aumento da passagem. Todo ano. E desta vez inovaram: 3 vezes, em menos de 12 meses. Em plena crise econômica.

Ele, o prefeito.
Ninguém gostou da novidade, apesar de tentarem[7]. A farsa durou pouco[8]. Estudantes e trabalhadores foram as ruas. Primeiro ocupamos a Superintendência de Trânsito e Transportes Públicos (STTP). Fomos recebidos com spray de pimenta pela polícia e com ameaças de morte por parte de diretores do órgão. Boa parte da mídia preferiu focar em 5 garrafas quebradas...[9] Fazer o que? Ficamos de luto pelas garrafas[10], mas na verdade foi por muito mais do que 5 garrafas térmicas quebradas[11]. Esta semana o Comitê pela Tarifa e Redução da Passagem e Passe Livre realizou outra ocupação, desta vez no prédio da Secretaria de Finanças[12], paralisando as atividades do local para forçar um canal de diálogo com o prefeito-primo que esqueceu de dialogar com a população sobre esse aumento criminoso. Setores da mídia fizeram valer o contracheque que recebem da prefeitura[13], e tentaram mais uma vez[14] criminalizar e desmoralizar as manifestações[15]. Em viajem pela Europa, o prefeito enviou seu Secretário de Comunicação, Arquimedes de Castro, que garantiu que nossas exigências de reunião seriam atendidas. Ou seja, reunião terça-feira, dia 28 com horário a definir, em local público[16]. A resposta seria dada até a sexta-feira, dia 24, da semana passada. A reposta não veio. Somente telefones desligados. Só depois entendeu-se o porquê...[17].



A exigência parte de uma armadilha que o Comitê sofreu em 2013 que Romero Rodrigues utilizou como palanque para aprovar a falácia do passe livre para estudantes da rede de ensino municipal. O Comitê ocupou o Gabinete do Prefeito, e no calor do momento da conjuntura nacional de 2013, a passagem foi congelada em R$ 2,10. Forçado a dialogar, marcou um encontro com os estudantes no Fórum da cidade. Deu ponto facultativo para os seus funcionários comparecerem e lotou o auditório. E anunciou triunfalmente: passe livre para os estudantes da rede ensino municipal. Só tinha um problema. Era uma farsa. Esse Passe Livre só serviu para financiar mais uma vez os empresários de ônibus com dinheiro público, através do FUNDEB[18] (além de isenção do ISS[19]), já que para estudar no colégio do município é necessário morar no mesmo bairro ou próximo. Acontece que ninguém pega ônibus para trafegar dentro do próprio bairro numa cidade de médio porte... Vida que segue. Continuamos na luta e só quando o aumento da tarifa for revogado. O bolso da população não merece. Novos atos estão sendo organizados para esta semana. Enquanto o senador Cunha Lima branda contra o ajuste fiscal no senado, ficamos aqui na cidade governada pelos seus parentes, a comer poeira e ver monumentos inúteis[20] sendo construídos ao valor de R$ 2 milhões e 200 mil reais[21], enquanto a cidade passa por problemas muitos mais sérios.












[1] http://marconeferreira.web123.f1.k8.com.br/cidades/romero-fecha-restaurante-popular-ze-luiz-ex-do-fome-zero-lamenta/
[2] http://apalavraonline.com.br/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=2&Itemid=128&id_noticia=%208149
[3] http://www.dercio.com.br/blog/saude-de-ferias-psfs-e-ubsfs-de-campina-grande-gan/
[4] http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2014/07/tarifa-de-onibus-em-campina-grande-custara-r-220-partir-de-segunda.html
[5] http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2015/02/tarifa-de-onibus-em-campina-grande-sobe-para-r-230-nesta-segunda-feira.html
[6] http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2015/07/preco-de-r-255-na-tarifa-de-onibus-em-campina-grande-entra-em-vigor.html
[7] http://pmcg.org.br/usuarios-elogiam-romero-pela-forma-como-conduziu-o-reajuste-de-tarifas-de-onibus/
[8] https://www.facebook.com/mikaell.donatopessoa/posts/687346838063601?hc_location=ufi
[9] http://g1.globo.com/pb/paraiba/jpb-1edicao/videos/t/edicoes/v/membros-de-movimento-passe-livre-invadem-e-quebram-objetos-na-sttp-em-protesto/4328904/
[10] https://www.facebook.com/photo.php?fbid=956250707730795&set=a.148959988459875.26831.100000376251070&type=1&theater
[11] https://www.facebook.com/alissongc/posts/955971871092012
[12] https://www.youtube.com/watch?v=gz_RD7djvEo
[13] http://www.falaprefeitopb.com.br/2015/07/pode-isso-manifestantes-fazem-apologia.html
[14] www.simoneduarte.com.br/sintab-manipulado-por-napoleao-maracaja-virou-instrumento-politico-para-protestos-equivocados/
[15] http://apalavraonline.com.br/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=2&Itemid=128&id_noticia=+11274
[16] http://youtu.be/PsdGWuQYIf0
[17] www.paraibaonline.com.br/noticia/968592-secretario-executivo-da-pmcg-e-detido-acusado-de-dirigir-embriagado.html
[18] http://campinagrandepb.com.br/passe-livre-vai-beneficiar-mais-de-mil-alunos-das-escolas-municipais/
[19] http://portalcorreio.uol.com.br/politica/politica/legislativo/2013/06/28/NWS,225983,7,201,POLITICA,2193-CAMARA-CAMPINA-GRANDE-APROVA-REDUCAO-PASSAGEM-ONIBUS-PASSARA-PARTIR-SEGUNDA.aspx
[20] http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2014/05/mp-recomenda-suspensao-de-obra-da-prefeitura-de-campina-grande.html
[21] http://www.paraibaonline.com.br/colunista/santos/9674-campina--entre-o-monumento-e-a-miseria.html

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Problema seria uma Solução?



Com o recente aumento nas passagens de ônibus, publicarei um texto escrito há dois anos sobre uma alternativa viável para barrar de vez o aumento absurdo e anual que acontece aqui: a concorrência.





Há menos de cinco anos atrás uma celeuma se instalou na cidade e provocou o pânico nos empresários de ônibus. Indivíduos, trabalhadores informais, na sua maioria desempregados, resolveram tomar uma iniciativa, influenciada pelo que já ocorria em outras cidades grandes. Transformaram seus carros em táxis-mambembes e por um preço muito abaixo da média lotearam seus carros de passageiros e levavam de um ponto a outro da cidade em alguns minutos.

Por muito tempo criou-se uma guerra informal entre os Alternativos (eufemismo para Lotações) e os Regularizados (ônibus e táxi). Denúncias de irregularidades e falta de segurança permearam todo o debate e confronto. Ao fim, acabaram por se extinguir e agora só circulam entre viagens intermunicipais – aonde é mais fácil de barrar a fiscalização. Mas o ponto crucial foi omitido deliberadamente do debate. Os Alternativos são uma solução e não um problema. Simplesmente porque barrariam por um tempo o abusivo preço das passagens municipais nos ônibus.

sábado, 1 de janeiro de 2011

A Classe Artística da Feira Central

Por trás de uma barraca de carnes e miudezas, reside escondido nos interiores da Feira Central o ponto que antigos e novos boêmios, poetas anônimos de cantoria popular e cidadãos comuns freqüentam costumeiramente à procura de um pouco de diversão e despreendimento do dia-dia. Engana-se quem imaginou alguns dos famosos cabarés que deram contornos românticos de outrora e tons marginais atualmente. O local em questão é o Bar de Teresa. Estável naquele local já há um bom tempo, tão certo como missa dia de domingo, são os repentistas que descompromissados, vão ao local cantar suas redondilhas improvisadas à espera de um público minguado, na maioria das vezes compostos de amigos e colegas de profissão (e lógico, alguns bêbados desavisados), na mais complexa arte de musicar sem ensaio, melodias ternas e sinceras sobre causos e contos da vida cotidiana, em um ping-pong que nos fazem abrir um sorriso sincero frente às rimas construídas espontaneamente.
 
Vindos normalmente de uma criação sem fartos bens-materiais, sertanejos antes de tudo, muitos dos repentistas começaram suas vidas artísticas ainda quando crianças, tocando em bares e cabarés da vida acompanhando os país ou amigos nas bandas. Sem ensino fundamental sequer finalizado, aprenderam o oficio na mais simples arte da prática e do esforço mental. Diferente dos outros tempos, todos os repentistas hoje não tocam na aventura de ganhar um trocado e conseguir viver com esse dinheiro o resto do dia. Todos hoje, principalmente os mais velhos, são ou aposentados ou quando fazem apresentações, normalmente são em eventos patrocinados, onde tem sua verba garantida sem preocupação nenhuma se vai ser o suficiente ou não para comprar um prato de comida, como antigamente.

Enfurtados numa pequena sala de bar, vendendo CDs e DVDs com suas obras completas, esperando conseguir mais do que uma simples cerveja paga pelos clientes, digladiam-se dois repentistas entrando verso e saindo verso, embolados pelo som da viola que nos remetem às cidadelas do interior nordestino, contando e cantando folclores, amores perdidos e brigas enfrentadas, sempre em primeira pessoa, ora zoando ora louvando o outro seja pela sua bravura ou sua covardia no momento relatado. Simpáticos, seja pela conveniência de agradar o ouvinte ou pela natureza pessoal, tentam tornar o ambiente agradável, improvisando nas letras palavras de honra e carinho aos visitantes não acostumados ao ambiente novo.

Obs: Esse textículo é um breve relato sobre as impressões e rápidas conversas tidas com os repentistas da aérea no dia da minha visita a Feira Central de Campina Grande. O clima e o ambiente em desgaste da área preservam, acima de tudo, a dignidade dos artistas que tocam somente pelo prazer do ofício, sem grandes ambições artísticas.

O “Falso” Malandro - A vida de um sambista na terra do forró

Texto originalmente publicado na Revista Impressões.
Pedro Souto Guimarães, filho de Severino Souto Guimarães e Adelaide Souto Guimarães, nasceu em Campina Grande, foi criado numa família de agricultores, arando a terra e plantando o sustento junto com três irmãs e dois irmãos, e é conhecido a mais de meio século na cidade como Pedro Cancha. Ele é um dos símbolos remanescentes da antiga boemia que viveu numa Campina Grande ainda florescendo como cidade em expansão e desenvolvimento.

Hoje, com setenta e quatro anos, Pedro Cancha não apresenta mais a virilidade e a elegância de tempos que outrora lhe dera fama, “mas não dinheiro”. Com as mãos calejadas, as roupas sujas de graxa devido ao conserto no carro, cabelos longos, barba por fazer e o rosto já marcado pelo tempo, nos recebeu em sua modesta casa no bairro do Cruzeiro que “de tão desarrumada parece a casa do Mazzaroppi nos filmes”, brinca Pedro. Contudo, ainda guarda consigo as histórias, a simpatia e os cacoetes de antigamente. Além de suas famosas vestimentas.
O próprio. Foto/Nathalia Quintella